"Enquanto eu corria
Assim eu ia
Lhe chamar
Enquanto corria a barca..."

quarta-feira, 6 de abril de 2011

House de cocar

Nem bem voltei de uma missão e já parto para outra na próxima semana. Assim será minha vida, pelo menos neste semestre. O negócio é aproveitar cada minuto em terra e fiz isso indo para São Paulo passar 4 dias com as pessoas que carrego na mochila. Que delícia fazer um bate-volta para a própria vida e ver que meu lugar continua lá, poder retomar conversas como se elas tivessem sido interrompidas na véspera e poder curtir uma preguiça com ela ("there is always hope", já dizia o grafite de Banksy).
Passei, ao todo, 20 dias navegando. Para ser mais preciso, foram 12 dias apenas navegando e 8 dias navegando e atendendo as comunidades ribeirinhas. Foi a primeira viagem e, por isso, o estranhamento não foi pouco; aprendi alguma coisa, desgostei de muita coisa, mas, tenho que tentar focar na viagem, sentir-me um caroneiro, um mochileiro de barba e cabelos raspados, que, ao invés de lavar pratos ou ser garçom na Europa, acabou virando militar em troca de uma experiência amazônica.
É muito difícil tentar explicar o que se sente no navio: o tempo não passa (aaaaaaah, Sidarta), o peso do militarismo contrasta com a leveza dos casais de araras voando no por-do-sol (os mais bonitos que já vi - pena poder compartilhar com você apenas pelo Blackberry Messenger ). Uma cabeça pensante pode enlouquecer numa viagem destas e, por isso, o máximo de conforto físico nos é dado para que a estafa mental demore a chegar: banho quente, camas confortáveis na medida do possível, comida sempre pronta na hora (o cardápio varia, mas, o gosto é sempre o mesmo: bacon com caldo de galinha), limpeza dos banheiros, TV, DVD, Imagem em Ação, Master e outros atrativos que só poderei contar no ano que vem. Tudo isso possível graças ao sistema de castas em que vivo agora, ocupando uma casta privilegiada. Mas, para mim, a estafa mental veio cedo: senti-me só no meio de tanta gente com a qual não compartilho valores, gostos ou passado; senti-me impotente diante da ansiedade de querer estar presente onde me sinto inseguro; senti a cilada que é tentar viver uma vida virtual, estando perto apenas em megabytes. Por sorte, havia os dias de atendimento propriamente ditos, nos quais a estafa física colocava a estafa mental para dormir. 
Os atendimentos foram feitos em todas, isso mesmo, em todas as comunidades que encontramos na porção que nos cabia no Rio Juruá. Uma casa? Ótimo! Vinte casas? Melhor ainda! Atendemos famílias inteiras de uma vez só, crianças, mulheres, homens, velhos e jovens. Resolvemos problemas de tão fácil resolução que até agridem a vaidade médica de quem veio dos pólos do conhecimento em saúde querendo ser uma espécie de Dr. House de cocar; vacinamos, na tentativa de mudar o curso do esquecimento que recai sobre estas comunidades. Ensinamos, na esperança de que estas mesmas pessoas mudem seu destino de verminoses, DSTs e gravidez na adolescência. Também experimentamos a frustração de saber ser nossa função apenas paliativa, uma maquiagem usada por poderes e autoridades (in)competentes para auto-promoção, deixando os ribeirinhos com menos que o mínimo, para que, desta maneira, subsista a falácia do: "ah! para quem não tem nada, isso já é muito" - essa gratidão inopinada e analfabeta de pessoas que ainda esperam a salvação chegar das águas.  É claro que, individualmente, fizemos diferença na vida de muitas pessoas; eu poderia, aqui, descrever os casos e as condutas, mas, longe de mim querer entrar nestes detalhes enfadonhos para quem não é da área - posso dizer, apenas, que vi coisas só tinha visto em livros antigos. Mas, individualmente, nada se resolverá nesta região. O que falta aqui é política pública, não só de saúde, mas, de tudo! Tudo mesmo!
Vim para cá com o objetivo claro de conhecer a realidade das pessoas desta região tão enigmática; vim para cá fantasiando uma mistura de "Diários de Motocicleta", Médicos Sem Fronteiras e Super-Homem. Obviamente, não é nada disso: a proximidade com a população que atendemos é muito pouca. E isso é, em grande parte, devido às diferenças que impomos entre nós - imagine a cena: uma comunidade de 3 palafitas, na beira do Rio Juruá, no meio da grande imensidão da floresta; cada casa tem umas seis pessoas, entre adultos e crianças. A comunidade tem escola mas não tem professor; existe um hospital próximo (esqueçam o conceito de próximo pelo asfalto), mas, o recreio (aquele barco típico de passageiros da Amazônia) custa R$200,00 (!) para chegar lá! Eis que então, sem avisar, enquanto os homens sentam no chão da casa em algo que poderia ser confundido com preguiça, as mulheres limpam o peixe na beira do rio e as crianças arrumam um jeito novo de brincar com a natureza, ouve-se um barulho diferente. Somos nós e nossa potente lancha, os extraterrestres chegando com a cura e as maravilhas tecnológicas da Marinha: temos remédios, injeções, GPS, botas, macacões, usamos repelente, protetor solar, somos paulistas e cariocas; levamos nossa própria água e não comemos sua comida… Mais nos afastamos que nos aproximamos. Mas, ainda hei de encontrar uma forma de substituir o sentar no chão para dividir uma refeição e, assim, conhecer melhor estas pessoas que, espero, enxergarão o Mauricio e, não, aquele macacão cinza com insígnias.

4 comentários:

  1. Querido Dr. House de cocar, Diários de Motocicleta, Médicos sem Fronteira, Super Homem;
    Muito obrigado pelo serviço prestado e uma salva de tiros de canhão pelo texto inspirador e enriquecedor..!

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  2. Mauricio,

    Que belo texto, de alguma maneira me identifiquei com ele, apesar de viver urbanamente, vivo em outra vida a 8 meses, na mesma tentativa frustrada das conexoes virtuais, um aprendizado sem fim, cada dia, cada minuto, tudo conta, tudo pesa, tudo parece ter mais significado... no peito a saudades dos rostos conhecidos, das historias familiares, enfim, voce sabe bem disso, de qualquer maneira, continue, tenho a certeza absoluta de que vale cada segundo dessa luta. parabens!

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  3. ler seu blog é um convite irrecusável para que minha alma navegue pela águas por onde navega o barco...
    não sei se pela profundidade da experiência que você está vivenciando, ou se pela minha identificação com o seu "vontade de abraçar o mundo com as pernas"...

    um sonhador, de cocar, que está descobrindo que um sonho é feito de muitas realidades...

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