Nestes nove dias de navegação, que mais pareceram um ano (Sidarta tinha razão sobre o rio e a inexistência do tempo), tenho sentido muita saudade e, por isso, pensado sobre ela. Para mim, saudade é a vontade de viver novamente algo que já passou, que já chegou ao ponto final na linha do tempo e que, portanto, já esgotou sua existência fora do mundo interno de cada um. Como, então, será possível sentir saudades de pessoas? Não falo daquelas pessoas que morreram, uma vez que estas, à sua maneira, também já esgotaram sua existência no tempo contado pelos vivos; também não falo das que matamos ou que se mataram em nossas vidas - as pessoas deletadas -, pois estas, de certa forma, também não existem mais.
No caso de pessoas, talvez, não devessemos falar em "saudade", mas, sim em "falta": sinto sua falta. No fundo, o significado seria quase o mesmo, mas, me parece que a falta pode ser suprida por reencontros ou, nos casos mais extremos, por substituições. Já a saudade, devido ao caráter efêmero de nossas experiências, não tem cura: nada pode ser vivido mais de uma vez.
E como uma pessoa passa a nos fazer falta? Como isso ocorre? Existe um tempo mínimo de convivência para que sintamos a falta ou, ao contrário, existe um tempo máximo, depois do qual não sentimos mais falta das pessoas (como não sentimos de um sofá já muito sentado)? Provavelmente, não - até mesmo pela insuficiência de medirmos a convivência pelo critério temporal cronológico. Sentimos falta das pessoas que fazem diferença em nossa vida, das que balançaram o marasmo da rotina, das que significam algo em nossa existência. Sentimos falta dos que gostaríamos de carregar em nossas mochilas e, nos momentos em que o sentimento nos assalta, tirá-los de seus compartimentos para compartilharmos aquele instante.
Quando eu era pequeno, minha mãe, brincando, dizia que eu sofria da "Síndrome do Caramujo", que carrega sua casa, seu mundo, nas costas, vagando sem rumo. Isso porque eu tinha verdadeira fixação por mochilas. Aquelas com armação, alças reguláveis, barrigueiras acolchoadas, cheias de porta-inutilidades, prontas para viagens lunares - elas me causavam algo difícil de explicar. Eu precisava daquelas mochilas, eu precisava carregar minhas coisas, eu precisava sair por aí para precisar carregar minhas coisas. Acho que já era um prenúncio, um aviso sobre a quantidade de espaço que eu precisaria para carregar as pessoas da minha vida pelos caminhos que escolheria; já era um indício da minha necessidade de partir e da minha dificuldade em deixar para trás.
É, eu tenho uma mochila muito grande!
Muito legal seu texto, meu grande amigo Mauricio. Identifiquei-me bastante com tudo, exceto a parte de gostar das mochilas cheias de "porta-inutilidades". hahahaha Fique bem por aí, irmão. Abraços
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