"Enquanto eu corria
Assim eu ia
Lhe chamar
Enquanto corria a barca..."

sábado, 4 de junho de 2011

a parte que eu gosto

Sem dúvida, um dos momentos que mais gosto dessas viagens que venho fazendo é o caminho percorrido do navio até as comunidades que serão atendidas. Explico: o navio, na maior parte das vezes, não pára (ou fundeia, de jogar a âncora no fundo, em linguagem de marinha) para que atendamos as comunidades; ele segue seu curso e cada equipe médica deixa o navio em uma lancha (que, no nosso caso, têm o nome de Tucunaré e Tambaqui). São lanchas dessas para rio, com o casco bastante angulado, cinzas (como tudo na Marinha do Brasil) e com um motor de popa que lhe confere uma velocidade incrível na água. Dessa maneira, nossa mobilidade torna-se muito maior.
Mas, tirando todos estes aspectos técnicos, a lancha é o momento que mais se aproxima das minhas irreais expectativas para esta experiência amazônica. É nela que consigo atingir minha maior proximidade com o rio e com a mata, que se projeta sobre a água como que nos saudando e nos convidando a um passeio (provavelmente, sem volta). Como me dá prazer sentir o vento no rosto - um dos únicos jeitos de se conseguir vento na Amazônia é se deslocando com velocidade -, vento tão forte que me faz sentir uma certa cumplicidade com aqueles cachorros que sempre vi com a cabeça pra fora do carro em minhas idas com a família à praia e para os quais acenava sem resposta. Mas, nunca tinha experimentado um vento de ar tão puro, tão sem cheiro, sem gosto e, ao mesmo tempo, tão denso que se pode pegar, guardar e comer.
O rio é um espetáculo à parte: tanto os principais quanto os pequenos afluentes. Às vezes, são calmos e parece que navegamos por grandes espelhos d'água, onde o céu é refletido nos seus menores detalhes (dizem que pilotos de helicóptero podem perder o referencial cima/baixo por causa desta perfeição reflexiva e enfiar a aeronave na água). Noutras, o rio faz questão de mostrar quem manda e nos brinda com infinitas marolas que dançam uma coreografia muito compassada, olhando todas na mesma direção; é um bonito espetáculo, mas, cada pancada no casco da lancha nos faz lembrar onde ficam o estômago e a coluna - e agüentar uma hora ininterrupta deste carrossel sem amortecedor pode ser bastante penoso. Os botos são companhia freqüente e nos cumprimentam com seus borrifos quando vêm respirar na superfície; os pássaros voam todo o tempo, mas, para mim, nenhum é mais bonito que um casal de araras anunciando o pôr-do-sol. No mais, é muito difícil nos depararmos com animais (vertebrados, claro), por mais irônico que isso possa parecer e achar um jacaré já virou motivo de aposta. 
Mas, de tudo, acho que nada se compara à chuva. Chuva com "C" maiúsculo, avistada facilmente muitas milhas antes de ser sentida, demarcando seu território como uma coluna cinza que denota o peso da massa d'água que tomaremos na cabeça e nas costas. Ao contrário das infinitas chuvas que já tomei na vida, a chuvas amazônica não se move (pelo menos, aparentemente); ela fica ali, chovendo, parada e somos nós que nos movemos ao seu encontro e nela entramos e saímos como num lava-rápido para pessoas. Os primeiros pingos vêm tímidos, testando nossa resistência e, assim que confirmada a fragilidade daqueles seres naquele pedaço de lata, as comportas são abertas e aquele enxame de pingos d'água nos ataca ferozmente. São tantos e tão fortes os pingos que mais parecem uma sessão de acupuntura tropical quando caem no rosto e é por isso que a posição de tomar chuva no meio do rio é aquela mesma posição de pouso de emergência: cabeça no meio dos joelhos. Eu já desisti de me proteger da chuva (talvez por nunca ter gostado de usar guarda-chuvas e preferir sentir a água) e, em vez de me encolher, me estico na lancha e deixo que a natureza mande seu recado sobre minha insignificância; em troca, tomo toda a água que consigo com minha boca bem aberta e sentindo a acupuntura na garganta. Deliciosa a sensação de me integrar àquilo tudo, de fazer parte dos ciclos que fazem da Amazônia tudo o que ela é, de ficar ao sabor das intempéries tropicais e, claro, de, finalmente, sentir um pouco de frio dentro dessa grande sauna a vapor.


4 comentários:

  1. Delicioso texto, Mô. Abraço forte de Baden, onde o rio é pequeno e a chuva tímida

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  2. deixar que a natureza mande seu recado sobre sua insignificância; sensação de se integrar, decorrente do modo de se entregar. somos todos grãos, arrogantes centelhas de grãos de fina areia diante a Natureza.
    esplêndida vivência, por vezes angústia, por outras o êxtase. mas o torpor? há; longe de ti. estás vivovivovivo e vivendo em unicidade com a vida ~

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  3. Mo, sou eu, a Ma! O Cado cadastrou a gente com o apelido de infancia dele...ehehe!! Agora posso te escrever!! Te liguei quando estavamos chegando em Ilha Bela (mami ficou c Sarah p descansarmos uns 5 dias)...lembrei das suas aventuras por aqui, com sua mochila-caramujo nas costas, sozinho pelas trilhas, acampando sobre os borrachudos! Como esta trabalhar na enchente de Roraima? Escreve tudo no blog pq é delicioso ler suas ideias e entrar um pouquinho na sua cabeça! Te amo e, como vc mesmo explicou, nao tenho saudade mas sinto demais a sua falta, meu querido irmao!! Beijos sem fim!!

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  4. Olá!
    Conheci teu blog pela Beatriz Carneiro. Adorei!
    Sou enfermeira e me apaixonei pelo trabalho da MB na Amazônia ainda na faculdade, durante um congresso. Ao ler seus textos, pude lembrar da frase que pensei naquele primeiro contato: lá, onde se precisa de tudo, aprendemos a ser verdadeiros profissionais de SAÚDE!
    Hoje encontro-me RM2 também, mas não tive a opção para ir para o NasH, infelizmente. Oficiais-Enfermeiros, dizem, não embarcam para as AsSHop. Acabei parando no Marcílio Dias.
    Confesso que fiquei feliz de saber que não sou a única "louca" que tinha/tem vontade de conhecer um mundo tão distante da minha realidade.
    Parabéns pelo site e pelo trabalho.
    Abraços,
    Rebecca

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