"Enquanto eu corria
Assim eu ia
Lhe chamar
Enquanto corria a barca..."

domingo, 13 de fevereiro de 2011

E se a luta foge de teu filho?

Imagine que você queira se converter a uma religião por ter extremo interesse em seus aspectos mais humanistas, em detrimento da liturgia, dos dogmas, das rédeas; imagine que a conversão é possível, mas, para tanto, você deva fazer um retiro em uma instituição ultra-ortodoxa, fundamentalista, desta relligião, um lugar onde as menores coisas importam e são levadas a ferro e fogo (barra da calça acima do salto do sapato: sacrilégio!); neste lugar, você só faz obedecer aos ditames de líderes religiosos apartados do mundo laico por sua opção obscurantista. Tudo isso, para, depois, escolher um caminho reformista, universalista. Pois bem, cá estou!
Começou! Aqui me encontro entre os guerreiros, entre os homens de armas, entre os Fuzileiros Navais do Batalhão de Operações Ribeirinhas em Manaus: sede da minha transformação de "paisano" para militar. Neste local, o que antes era apenas uma mudança de corte de cabelo e de textura de minhas bochechas e queixo caminha forçosamente para uma mudança de comportamento, de valores e de concepções. Se eu concordo? Que importa? "Sim, senhor; não, senhor; quero morrer" - são estas as opções de diálogo com meu superior,  responsável "pedagógico" pela minha formação (enquanto isso, Piaget revira no túmulo).
Não, não é tão ruim quanto parece. Não é pesado fisicamente, intelectualmente (antes fosse) ou qualquer outro "mente" (ah, não, minto: é ruim gastronomicamente!). O que, de verdade, incomoda é a dificuldade de ambientação em Manaus (uma cidade esquizofrênica, bem mais que São Paulo, acreditem - a negação da Floresta no meio da Floresta) e a demora em começar a fazer aquilo que vim fazer: ser médico e atender a população ribeirinha. Outras coisas incomodam, é fato, mas, melhor não enveredar por este caminho, pois ainda não entendi o que pode ou não ser dito (deve haver um regulamento para isso também).
A rotina no Batalhão é muito simples: acordar antes do sol, fazer a faxina do alojamento, fazer a barba, tomar café em 10 minutos, ter alguma aula sobre alguma coisa (lembra do Dia da Marmota? então...), tomar algum esporro por algum lapso (nada que assuste, apenas papéis sendo desempenhados), almoçar em 20 minutos (inclusive fígado, de 2 a 3 vezes na semana...), ter mais algum aula sobre alguma (ou a mesma?) coisa e, se der sorte, ter TFM (Treino Físico Militar), que é a parte mais legal. Depois, há o jantar para aqueles que ficam (tudo em horário de asilo: almoço às 11:00, jantar às 17:00 e assim vai) e a licença para os que tem casa (eu, agora, tenho casa! u-hu!).
Durante o dia - e cada vez mais - temos sessões intermináveis de Ordem Unida, aquelas coisas: "direita, volver", "meia-volta, volver", "ordinário, marche". Como somos "dotô", somos poupados de fazer isso debaixo do sol, mas, mesmo assim, está longe de ser agradável. Para o desespero dos superiores, que sonham com o objetivo último de nos apresentarmos impecavelmente em nossa formatura, é justamente na Ordem Unida que o grupo mostra sua cara: um monte de médicos, dentistas, fisioterapeutas, administradores e qualquer outra carreira não militar. Chega a ser cômico... Tragicômico para quem se importa.
Mas, tudo bem! Com o foco nas missões assitenciais, tenho tentado permanecer calmo - o que, confesso, muitas vezes é difícil - e, com a ajuda de muitas pessoas, inclusive dos militares de menor graduação responsáveis pelo grupo e que tem se mostrado verdadeiros amigos, a "conversão" tem sido menos traumática.

domingo, 23 de janeiro de 2011

"VERÁS QUE UM FILHO TEU NÃO FOGE À LUTA..."

Bom! Agora que já terminei de fazer coisas imprescindíveis para minha viagem, ou melhor, para combater a ansiedade – coisas do tipo: limpar o barbeador elétrico, mexer no iPod, cortar as unhas, aparar as costeletas, navegar por sites úteis para esta vida futura, mas, que por enquanto, são apenas imagens concretas da própria ansiedade –, resolvi escrever para responder algumas perguntas que me tem sido feitas por todos a quem conto da viagem. As mesmas perguntas que tenho me feito desde que tive a idéia de embarcar nessa experiência.
Na maioria das vezes, as pessoas ficam curiosas sobre o caráter do trabalho que farei na Amazônia: é obrigatório? É voluntário? É porque você não serviu às Forças Armadas quando fez 18 anos?
Com meu amplo conhecimento de leis e constituições (ou não), encontrei a Lei sobre a qual se baseia o Serviço Militar Médico; é a que está abaixo e é bem auto-explicativa:
“LEI Nº 12.336, DE 26 DE OUTUBRO DE 2010.
Altera as Leis no 4.375, de 17 de agosto de 1964, que dispõe sobre o serviço militar, e no 5.292, de 8 de junho de 1967, que dispõe sobre a prestação do serviço militar pelos estudantes de Medicina, Farmácia, Odontologia e Veterinária e pelos médicos, farmacêuticos, dentistas e veterinários
Os concluintes dos cursos nos IEs (Institutos de Ensino) destinados à formação de médicos, farmacêuticos, dentistas e veterinários que não tenham prestado o serviço militar inicial obrigatório no momento da convocação de sua classe, por adiamento ou dispensa de incorporação, deverão prestar o serviço militar no ano seguinte ao da conclusão do respectivo curso ou após a realização de programa de residência médica ou pós-graduação, na forma estabelecida pelo caput e pela alínea ‘a’ do parágrafo único do art. 3o, obedecidas as demais condições fixadas nesta Lei e em sua regulamentação.”

Ou seja, fui, sim, obrigado, por uma Lei válida desde tempos sombrios da história de nosso país, a me apresentar às Forças Armadas quando terminei o curso médico. Como sabemos, o Estado brasileiro é insuficiente em prover todos os direitos básicos a todos seus cidadãos, fato ainda mais evidente quando falamos de regiões longínquas desta “pequena” terra. Dentro deste quadro, cabe às Forças Armadas cumprir o papel de Estado nestes locais mais ermos, sendo, lá, a única – e, senão a única, a mais presente - expressão da República Federativa do Brasil.
É aí que eu entro: as Forças Armadas tem um número de vagas para MFDV (Médicos, Farmacêuticos, Dentistas e Veterinários) a serem preenchidas todo ano; muitas das vagas são relativas a bases, quartéis e centros tecnológicos militares e o médico acaba atendendo somente seus, agora colegas, militares. Outras vagas são utilizadas para cumprir este papel de “Estado Presente” em regiões de difícil acesso, como as comunidades ribeirinhas da Amazônia Legal. E “Estado Presente”, entre outras coisas, significa saúde!
Apesar do caráter obrigatório do alistamento dos MFDV, a Força Aérea e a Marinha incorporam apenas voluntários. Explico: para poder ir para Manaus, fui voluntário para a Marinha dentro de um sistema de alistamento obrigatório para as Forças Armadas. Você também tem a opção de ser “não voluntário” para nenhuma das Armas e conseguir escapar da incorporação se for muito bem (nem precisa ir tão bem assim...) na colocação geral do processo seletivo. Por outro lado, se o “não voluntário” vai mal no processo seletivo, a lista é invertida e ele, agora, está no topo das convocações compulsórias para vagas às quais não apareceram voluntários, como, por exemplo, médico de uma base militar na Cabeça do Cachorro – imagina só...
A pergunta natural que segue na conversa é, geralmente, “o que você vai fazer lá?” e, como disse, serei médico da Marinha do Brasil.
Há duas modalidades de serviço médico em Manaus: médico de terra e médico embarcado.
O médico de terra fica hummmm... em terra! Eureka! Isso quer dizer que ele atende, na base, a comunidade militar (incluindo suas famílias, dependentes etc), durante meio período do dia; vez ou outra, estes médicos passam a compor equipes médicas que partirão para missões assistenciais às comunidades ribeirinhas, ficando até dois meses em navegação. Já o médico embarcado, por sua vez, é o oficial médico da embarcação (a Marinha tem 3 navios equipados para assistência médica – e que navios, diga-se de passagem!); isso significa que ele está atrelado à embarcação, como um servo a seu feudo. O médico embarcado sai em todas as missões que aquele navio realiza no ano (o que dá, mais ou menos, o dobro de dias de navegação de um médico de terra), participa de viagens de qualquer caráter daquela embarcação (teste de motor, exercícios e afins) e, quando o navio está aportado em Manaus, atende somente sua tripulação.
Quem me conhece pode adivinhar qual modalidade de serviço eu quero; mas, de qualquer forma, só posso escolher depois do treinamento básico.
E a derradeira pergunta tem sido “mas, e aí, onde você vai ficar agora?”. A resposta é a seguinte: no quartel! Tenho oito semanas de treinamento básico (seja lá o que for isso) e, depois, devo mudar para um casa com a Vanessa, o Cássio e o Daniel – todos amigos queridos da Santa Casa –, a futura famosa república Novos Baianos.
É isso! Selva! Saúde onde houver vida!