"Enquanto eu corria
Assim eu ia
Lhe chamar
Enquanto corria a barca..."

sexta-feira, 18 de março de 2011

Caramujo

Nestes nove dias de navegação, que mais pareceram um ano (Sidarta tinha razão sobre o rio e a inexistência do tempo), tenho sentido muita saudade e, por isso, pensado sobre ela. Para mim, saudade é a vontade de viver novamente algo que já passou, que já chegou ao ponto final na linha do tempo e que, portanto, já esgotou sua existência fora do mundo interno de cada um. Como, então, será possível sentir saudades de pessoas? Não falo daquelas pessoas que morreram, uma vez que estas, à sua maneira, também já esgotaram sua existência no tempo contado pelos vivos; também não falo das que matamos ou que se mataram em nossas vidas - as pessoas deletadas -, pois estas, de certa forma, também não existem mais. 
No caso de pessoas, talvez, não devessemos falar em "saudade", mas, sim em "falta": sinto sua falta. No fundo, o significado seria quase o mesmo, mas, me parece que a falta pode ser suprida por reencontros ou, nos casos mais extremos, por substituições. Já a saudade, devido ao caráter efêmero de nossas experiências, não tem cura: nada pode ser vivido mais de uma vez.
E como uma pessoa passa a nos fazer falta? Como isso ocorre? Existe um tempo mínimo de convivência para que sintamos a falta ou, ao contrário, existe um tempo máximo, depois do qual não sentimos mais falta das pessoas (como não sentimos de um sofá já muito sentado)? Provavelmente, não - até mesmo pela insuficiência de medirmos a convivência pelo critério temporal cronológico. Sentimos falta das pessoas que fazem diferença em nossa vida, das que balançaram o marasmo da rotina, das que significam algo em nossa existência. Sentimos falta dos que gostaríamos de carregar em nossas mochilas e, nos momentos em que o sentimento nos assalta, tirá-los de seus compartimentos para compartilharmos aquele instante.
Quando eu era pequeno, minha mãe, brincando, dizia que eu sofria da "Síndrome do Caramujo", que carrega sua casa, seu mundo, nas costas, vagando sem rumo. Isso porque eu tinha verdadeira fixação por mochilas. Aquelas com armação, alças reguláveis, barrigueiras acolchoadas, cheias de porta-inutilidades, prontas para viagens lunares - elas me causavam algo difícil de explicar. Eu precisava daquelas mochilas, eu precisava carregar minhas coisas, eu precisava sair por aí para precisar carregar minhas coisas. Acho que já era um prenúncio, um aviso sobre a quantidade de espaço que eu precisaria para carregar as pessoas da minha vida pelos caminhos que escolheria; já era um indício da minha necessidade de partir e da minha dificuldade em deixar para trás.
É, eu tenho uma mochila muito grande!

quarta-feira, 9 de março de 2011

Missão dada é missão cumprida!

Bom, aqui me encontro. Sentado em minha sala, ouvindo Tim Maia ("… já senti saudade…") e esperando… Amanhã, embarco para minha primeira comissão (que é o mesmo que missão), minha primeira ASSHOP (Assistência Sócio-Hospitalar); estou muito contente que o momento tenha chegado; as expectativas encontrarão o mundo real e eu, um outro mundo.
Subiremos o Rio Juruá, um afluente do Solimões que nasce no Peru e tem águas no Amazonas e no Acre. É um rio importante por aqui, já que serve de hidrovia para diversas comunidades ribeirinhas, as mesmas comunidades nas quais faremos o atendimento e cujos habitantes passarão ter lugar de destaque em minha experiência neste ano: os primeiros rostos dos, talvez, mais significativos pacientes que terei na vida.
Parece que, finalmente, este duro mês de adaptação à nova vida, aos novos hábitos, à distancia, terá a devida recompensa - nossa! Parecia que esse dia nunca ia chegar! Aprendi muito nestes tempos; aprendi a ser um militar (seus códigos, seus comportamentos, seus rituais, sua aparência), aprendi a ficar horas sem fazer nada, somente pensando; aprendi a passar roupa (faço vincos, inclusive!), a cuidar de uma casa; aprendi que e a barrilha que deixa a piscina clara; aprendi o nome de uns tantos peixes amazônicos e que viraram sinônimo de banquete pra mim; aprendi, nos últimos tempos, a comer plantas que só nascem aqui; aprendi a ficar quieto e não expressar minha opinião ("sim, senhor!); aprendi que, em muitos lugares, uma formatura e mais importante que o próprio curso; tenho aprendido a deixar de olhar as coisas com olhos paulistas e, assim, a gostar do lugar onde vivo agora. Aprendi que longe é longe, por mais que, de algumas pessoas, quiséssemos ficar sempre por perto. Também tenho sonhado muito, como se a ausência da minha "rede de sonhos", que ficava pendurada em cima da minha cama, tenha aberto alguma comporta: sonho o tempo todo; sonho vívido; sonho real; sonhos antigos e sonhos novos, com pessoas antigas e pessoas novas. Cada noite, uma viagem diferente, com pessoas diferentes, para lugares já conhecidos. 
Pra fechar esta primeira parte do período de adaptação, aconteceu de ficarmos amigos de um pessoal do bairro; por um feliz acaso, viemos morar, justamente, no bairro onde moram os alunos do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazonia). Formamos uma pequena comunidade aqui dentro, com almoços coletivos, tardes jogando conversa fora num quintal, cerveja no fim do dia, visitas de portão aberto (tudo acompanhado de uma comunidade canina do mesmo tamanho). E eles, que estão aqui ha mais tempo, nos mostram uma cidade que nos cai muito melhor, mais fácil de habitar e de gostar. 
Por enquanto, sem muitas coisas concretas para contar e sem muita disposição em expressar em palavras as não concretas; acho que terei mais a dizer quando puder contar dessa minha experiência sidartiana de ouvir o rio.